Associação Moçambicana de Reciclagem

Beira debate soluções sustentáveis para os desafios da gestão de resíduos

O Conselho Municipal da Beira (CMB) realizou, na manhã de sexta-feira, 8 de agosto, o webinar “Para onde vai o meu lixo?”, dedicado à reflexão sobre a gestão de resíduos sólidos. A iniciativa foi organizada em parceria com a Associação Moçambicana de Reciclagem (AMOR) e inseriu-se nas comemorações dos 118 anos da cidade da Beira, assinalando também o Dia Mundial de Combate à Poluição e o Dia Mundial da Limpeza. Estiveram presentes representantes de instituições públicas e privadas, escolas, organizações não-governamentais, associações comunitárias e o público em geral. O objectivo foi reflectir sobre o impacto dos resíduos no meio ambiente e identificar soluções sustentáveis e inclusivas para a cidade.

Durante o evento, Etelvina Jamisse, representante da área de Gestão Urbana e Equipamentos, apresentou o percurso dos resíduos na cidade, sublinhando que, embora o município possua uma estrutura organizada, com rotas de recolha bem definidas e uma base operacional localizada na Munhava, a sustentabilidade do sistema enfrenta ainda vários desafios. A deposição inadequada continua a representar riscos para a saúde pública e contribui para a emissão de gases com efeito de estufa.

O município dispõe actualmente de dois modelos principais de recolha: o sistema “ponto a ponto”, aplicado em bairros com maior viabilidade operacional, e a recolha primária, usada em zonas de difícil acesso, com recurso a meios manuais como txovas e carrinhas de mão. A frota inclui 17 meios operacionais, entre os quais se destacam 15 viaturas, uma retroescavadora, uma pá carregadora, sete compactadores, três basculantes e dois porta-contentores. O serviço de limpeza urbana é complementado por equipas de varredura, responsáveis pela manutenção de ruas e espaços públicos.

Entre os principais entraves apontados, destacou-se a fraca consciencialização da população quanto à separação e descarte adequado dos resíduos. A vereadora referiu ainda a insuficiente cobertura de contentores nos bairros periféricos. Como resposta, o município tem vindo a reforçar campanhas de educação ambiental, com o envolvimento de escolas, universidades, associações e organizações parceiras.

Foi também mencionado o impacto da actuação de catadores informais, que muitas vezes remexem no lixo e deixam resíduos espalhados no chão, incluindo materiais orgânicos que poderiam ser reaproveitados. O município tem trabalhado com cooperativas e associações, fornecendo apoio técnico com vista à melhoria das práticas de recolha e valorização de resíduos recicláveis.

Além do município, outras entidades partilharam experiências durante o webinar, contribuindo para uma reflexão mais alargada sobre os desafios e oportunidades da gestão de resíduos na Beira.

A Associação Moçambicana de Reciclagem (AMOR), representada por Cândida Braga, destacou o papel das parcerias locais no reforço da educação ambiental e na implementação de soluções práticas. Sublinhou a importância da colaboração entre o município, o sector privado e a sociedade civil, apontando que a AMOR tem vindo a apoiar acções comunitárias de limpeza, jornadas de sensibilização e formação de cooperativas de catadores. “Estamos a trabalhar lado a lado com o município para reforçar a recolha em zonas críticas e criar alternativas mais sustentáveis, através da promoção da economia circular e do aproveitamento de resíduos recicláveis”, explicou.

A associação Geração Saudável destacou o seu trabalho de sensibilização comunitária através de actividades culturais e oficinas de educação ambiental. “Temos ajudado as comunidades a adoptarem boas práticas e abordamos temas como reciclagem e economia circular, incentivando o envolvimento directo dos cidadãos”, afirmou.

A nível governamental, Arminda José, da Direcção Provincial de Desenvolvimento Territorial e Ambiente, explicou que a instituição tem o papel de monitorar as actividades desenvolvidas pelas empresas, nomeadamente na área do licenciamento ambiental. Referiu que todas as empresas devem apresentar planos de gestão ambiental antes de iniciar operações ligadas ao ambiente.

Do lado académico, Abibo Chiar, coordenador do curso de licenciatura em Gestão Ambiental na Universidade Católica de Moçambique, partilhou que os cursos de gestão ambiental à distância abordam diversas temáticas, incluindo a gestão de resíduos. “Os nossos estudantes são incentivados a elaborar trabalhos práticos e a participar em campanhas ambientais. Temos colaborado em actividades promovidas pela AMOR e outras instituições”, disse. Acrescentou ainda que os desafios actuais devem ser encarados como oportunidades para inovar.

A associação Tagumanicanane, representada pelo coordenador Mário Tomo, relatou o seu trabalho na limpeza das praias da Beira, onde realiza acções de sensibilização comunitária. Apontou que os resíduos mais comuns recolhidos são garrafas PET, vidro, plásticos e papelão. “Já recolhemos mais de 15 toneladas de resíduos. O que é reciclável encaminhamos para a empresa 3R e o resto é levado pelo município para o destino final, na lixeira”, explicou, lamentando a inexistência de soluções locais para o reaproveitamento do vidro.

Por sua vez, Edmilson Sunza, da startup FABLAB Moçambique, apresentou várias ferramentas tecnológicas como Kolekt que permite monitorar e gerir a recolha de resíduos em tempo real. Explicou que soluções como esta ajudam os municípios a tomarem decisões mais eficazes e a optimizarem recursos no processo de recolha e transporte.

O webinar terminou com uma mensagem clara: a gestão de resíduos sólidos é uma responsabilidade de todos. O envolvimento activo dos cidadãos, o fortalecimento das parcerias entre instituições públicas, privadas e comunitárias, bem como o investimento em educação ambiental e tecnologia, são essenciais para garantir uma Beira mais limpa, saudável e sustentável.

Partilhar: